Pessoas trans no mercado de trabalho: apresentação para um grupo de trabalho

Pessoas trans no mercado de trabalho: projeto apoia inclusão profissional

Quando se conversa com uma ativista pela inclusão de pessoas trans no mercado de trabalho, um tom otimista é o que menos se espera. Os dados no Brasil, afinal, são bem desfavoráveis a essa população. Porém, Maite Schneider, uma das fundadoras da rede Transempregos, desafia essa expectativa. Agitada, mas em um tom de voz gentil, ela traz exemplos positivos para o centro da discussão, mesmo quando as perguntas da entrevista convidam-na a descrever problemas.

Aos 46 anos, Maite está acostumada a ser surpreendente. Em um depoimento disponível no curso online gratuito sobre LGBT+ do Veduca, ela conta um pouco da sua experiência de autodescoberta como mulher trans, termo usado para se referir às pessoas que se identificam com o gênero feminino, mas foram designadas como sendo do gênero masculino, ao nascerem. Parte importante dessa trajetória foi aceitar que os padrões tradicionais de gênero e comportamento não davam conta da sua identidade.

“Meu pai me colocou no judô e no escotismo, coisas que meu irmão já fazia, e disse ‘olha, se você não quiser sofrer na vida, tem que imitar o seu irmão e as coisas que ele faz’. Eu tentava, mas não funcionava”, ela conta. “Era quase como se eu fosse um vampiro. Eu me olhava no espelho e não via minha imagem refletida. Eu dizia ‘não sou eu’”.

Graças à sua disposição em se entender e ao apoio que recebeu do próprio pai e de uma psicóloga, depois de expor seu sofrimento, ela entendeu melhor o que era ser transgênera. Passou por um longo processo de transição e de aceitação de si mesma, engajou-se em movimentos LGBT+ e participou da criação da Associação Brasileira de Transgêneros (ABRAT), em 2009, e do Transempregos, em 2013.

“Venho de um lugar de privilégio, por ser branca, de classe média e, principalmente, por ter recebido apoio para aceitar quem eu sou, mas a luta tem que ser conjunta. Para chegar perto do mundo que a gente imagina, tem que estar junto e misturado”, ela diz.

Como o Transempregos ajuda na inserção de pessoas trans no mercado de trabalho

Projeto de referência no apoio à inserção de pessoas trans no mercado de trabalho, o Transempregos atua em duas frentes principais: facilita o contato entre empresas que têm vagas abertas e pessoas transgêneras que estão em busca de emprego e, ao mesmo tempo, oferece consultoria e capacitação para que as companhias sejam mais inclusivas e diversas.

O Transempregos surgiu em 2013, como um desdobramento do trabalho da Associação Brasileira de Transgêneros, que Maite havia criado quatro anos antes, em conjunto com a cartunista Laerte Coutinho, a advogada travesti Márcia Rocha e a psicanalista transgênera Letícia Lanz. Um dos principais resultados da ABRAT, até aquele ano, havia sido a realização de cursos de qualificação profissional para pessoas trans. Porém, as primeiras alunas formadas iam procurar emprego e sequer conseguiam chegar às entrevistas com os departamentos  de Recursos Humanos. O grupo que coordenava a ABRAT resolveu, então, criar um canal para estabelecer a ponte entre candidatas e empresas.

A equipe do projeto não divulga o número de contratações que intermediou desde sua fundação, mas só na semana anterior à entrevista com Maite, 15 pessoas haviam recebido o “sim” dos empregadores, graças à articulação do TransEmpregos.O perfil dos candidatos que procuram a rede é variado: 40% têm formação no Ensino Superior e outros 30% em algum curso técnico. Até janeiro de 2018, 46 empresas já haviam usado o Transempregos para recrutar talentos ou como fonte de capacitação corporativa.

Os números positivos são o esboço de uma mudança necessária e urgente. Um levantamento do Grupo Gay da Bahia, que há mais de 30 anos coleta dados de violência contra indivíduos LGBTs em todo o país, mostra que, em 2017, uma pessoa perdeu a vida no Brasil a cada 19 horas, por causa de crimes de homofobia ou transfobia. O site da organização registra as notícias de jornais locais que relatam cada um desses crimes. A descrição dos ataques, de tão chocante, não deixa dúvida de que há um forte componente de ódio nessas ações.

Outro dado impressionante vem da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA). Segundo a organização, 90% dos travestis e transexuais recorrem à prostituição como fonte de renda. Isso acontece, segundo a organização, por causa da dificuldade dos indivíduos trans de conseguir emprego, seja pelo preconceito, seja pela baixa qualificação. A Antra estima que 56% das pessoas que compõem essa comunidade não possuam sequer o Ensino Básico completo, algo que também resulta, em boa medida, do preconceito. A média de idade em que pessoas que se identificam como travestis e transexuais são expulsas de casa pelos pais ou responsáveis, quando isso acontece, é de 13 anos. Entre aquelas que conseguem ficar na escola, os relatos de agressões físicas e psicológicas são a regra. Não é de se espantar que a falta de alternativas empurre muitas dessas pessoas para as ruas.

“No mínimo duas vezes por semana, eu vou ver uma pessoa trans que está lá, com o corpo no IML, e que, em alguns casos, vai ser enterrada como indigente, porque não tem o corpo reconhecido e a família deu graças a Deus porque saiu esse estorvo do caminho”, conta Maite Schneider.

Inserir as pessoas trans no mercado de trabalho é um caminho para virar o jogo

Pessoas trans no mercado de trabalho: Maite Schneider

Maite Schneider, ativista e uma das fundadoras do TransEmpregos: empresas estão percebendo que investir na diversidade de seu quadro de funcionários aumenta a produtividade, ela diz.

Mesmo diante do cenário desolador de desrespeito aos direitos da comunidade LGBT, Maite Schneider acredita que a inserção das pessoas trans no mercado de trabalho e nas oportunidades educacionais pode se ampliar. À frente do Transempregos, ela já notou uma mudança significativa na postura de muitas empresas em relação aos profissionais transgêneros. Leia mais sobre o tema na entrevista a seguir.

Blog do Veduca – Como a transfobia se revela no mercado de trabalho?

Maite Schneider – Das mais variadas formas. As descrições das vagas colocam determinações que não abraçam a grande maioria das pessoas transgêneras, devido à evasão escolar e à falta de capacitação, motivadas em boa medida pela transfobia. Depois, é comum que as profissionais que tenham os requisitos necessários sejam barradas pelos departamento de Recursos Humanos, quando são chamadas para uma entrevista. Mesmo quem entra na empresa, encontra, em muitos casos, companhias que não estão preparadas para receber essas pessoas e para respeitar a essência diversa de cada ser humano.

Blog do Veduca – De 2013, quando o projeto foi criado, para 2018, vocês notaram avanços no acesso ao emprego e no ambiente de trabalho para as pessoas trans? A transfobia diminuiu, em algum sentido?

Maite Schneider – Tem havido avanços importantes na forma como as empresas se relacionam com as organizações. Quando o TransEmpregos foi criado, era muito difícil termos acesso às empresas e tínhamos poucos casos de sucesso para compartilhar. As companhias com as quais conseguíamos criar um diálogo demoravam muito tempo para contratar uma pessoa trans, eram palestras e mais palestras até elas criarem confiança. Hoje, vemos que as empresas já estão nos procurando e que, em questão de um mês, conseguimos colocar pessoas trans dentro das empresas e nas mais variadas frentes.

Blog do Veduca – O que os governos poderiam fazer para tornar o mercado de trabalho mais inclusivos às pessoas trans? E as empresas?

Maite Schneider – Os governos tinham que, no mínimo, respeitar o artigo 5º da nossa Constituição, que diz que todos somos iguais perante a lei. Podiam começar pelas políticas afirmativas de apoio à não-discriminação e ao não preconceito. Também podiam colocar em prática leis que punem homofobia, transfobia e outras formas de intolerância. Já as empresas estão fazendo, dentro do possível, essa mudança. As empresas sabem que ao contratar uma equipe mais diversa, aumentam a produtividade e a criatividade, então, elas têm essa consciência na prática. Isso já foi feito fora do Brasil, funcionou e acabou vindo para cá. A questão, agora, é que as companhias têm que estender essa prática de valorizar a diversidade para além do RH, da Sustentabilidade e do Marketing. Esses valores precisam estar no DNA da empresa, como parte de sua Missão e seus Valores.

Blog do Veduca – As estatísticas de assassinatos mostram que o Brasil é o país mais violento do mundo contra pessoas trans. Em relação ao mercado de trabalho, o Brasil também está na lanterninha mundial?

Maite Schneider – Em termos de empregabilidade, o Brasil não tem um déficit tão grande em relação a outros países. Só na Atento (empresa de contact center), são  1300 pessoas trans, em um universo de 78 mil funcionários no Brasil. Temos exemplos positivos e estamos construindo uma realidade mais favorável, mas é claro que as empresas ainda têm muito a mudar, para se abrir a equipes mais diversas.

Blog do Veduca – Em termos de experiência individual, o que você aprendeu com o projeto e com as pessoas com quem você se relacionou por meio do TransEmpregos, nesses mais de cinco anos de iniciativa?

Maite Schneider – Todo dia eu aprendo uma coisa nova, inclusive a lidar com preconceitos que eu achei que não tivesse, mas tinha. A gente vai vendo estigmas e vieses inconscientes que surgiram na construção social. Eu amo viajar, mas a melhor viagem que tem é entrar no universo de outra pessoas. É tão gratificante poder fazer parte disso! Lido diariamente com muita gente, e me enriquece enormemente ser uma pontinha no processo de mudança e de empoderamento dessas pessoas todas.

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