Conflitos em equipe: esgrimistas em competição

Conflitos em equipe: como lidar bem com os desacordos

Basta haver duas pessoas em uma sala para que existam duas visões diferentes sobre como as coisas devem ser e, portanto, para que nasçam os conflitos em equipe.

É assim que a diretora de desenvolvimento da Logus Recursos Humanos, Gleici Ibañez, explica o quanto os conflitos em equipe são comuns – e naturais – nas empresas.

Ela se apressa em dizer, porém, que conflitos em equipe não são necessariamente ruins. Na verdade, são uma excelente fonte de crescimento profissional e pessoal, segundo a especialista.

“O psiquiatra Roberto Shinyashiki escreveu um livro chamado ‘Problemas? Oba!’, que explica como podemos encarar os problemas de forma construtiva. Fazendo um empréstimo do título do livro dele, eu diria que podemos adotar a mesma postura para os conflitos em equipe. Conflitos? Oba!”, ela brinca.

Segundo Ibañez, o que define se os conflitos em equipe serão totalmente destrutivos ou se resultarão em algo bom é a maneira como as pessoas envolvidas e a liderança da companhia lidam com a situação.

Quando os chefes da área ou da organização abraçam os conflitos em equipe e buscam solucioná-los com a participação dos próprios funcionários, a chance de obter bons resultados aumenta muito.

É possível, até mesmo, que o grupo saia do conflito melhor do que entrou.

“O que nos movimenta são as crises, as dificuldades, Sem crise não tem crescimento. Conflito é assim, nos obriga a olhar para os problemas”, resume a executiva da Logus RH.

Solucionar conflitos em equipe não precisa ser um sofrimento

Além de abrirem oportunidades para ajustes importantes, os conflitos em equipe podem ser mais fáceis de se resolver do que parecem à primeira vista.

Fundadora da empresa TMP Consultoria e Gestão, Tatiana Procópio explica que já viu problemas de relacionamento que pareciam bastante enraizados se dissolverem a partir de medidas relativamente simples dos líderes ou dos profissionais de Recursos Humanos da empresa.

“É preciso iniciativa e flexibilidade. O mais importante é querer solucionar a questão e dedicar um tempo a isso”, ela explica.

Especialistas compartilham suas experiências

Para ajudar nossos leitores a refletir sobre seu papel na solução dos conflitos em equipe, entrevistamos Procópio e Ibañez a respeito das causas do problema e dos caminhos para uma solução satisfatória.

Procópio é graduada em Ciências Econômicas pela PUC-MG e especialista em Gestão Estratégica de Pessoas pela FGV. Trabalhou como gestora de pessoas por 14 anos na área de varejo e atualmente é consultora/diretora da TMP Consultoria e Gestão, Expertise em RH, sediada em Belo Horizonte.

Ibañez tem graduação em Psicologia e pós-graduação em Psicologia Transpessoal pela Universidade Católica de Pelotas, no Rio Grande do Sul. Conta com mais de 20 anos de experiência como consultora em Recursos Humanos e é Master Coach, com certificação BCI (Behavioral Coaching Institute). A empresa onde ela trabalha tem sede em Goiânia.

Ambas comentam que a gestão dos conflitos em equipe é, provavelmente, uma das tarefas mais frequentes e importantes de quem assume um posto de comando.

Em muitas situações, é natural que mesmo um/a chefe bem preparado/a fique receoso/a ao “se meter” nos conflitos em equipe da sua área. No entanto, ele/a deve saber, segundo as especialistas, que tentar resolver a situação é melhor do que fingir que o problema não existe.

Além disso, ele/a pode aproveitar essa janela aberta pela crise interpessoal para entender melhor os desafios inerentes ao próprio trabalho e propor formas de tornar a equipe mais produtiva e satisfeita.

Evidentemente, é impossível esgotar esse assunto em um post, mas as observações de Ibañez e Procópio podem dar uma ideia geral de como lidar positivamente com os conflitos em equipe que vivenciamos. Vamos lá?

Três aspectos dos conflitos em equipe

Conflitos são inevitáveis em qualquer grupo que trabalhe junto, mas podem ser resolvidos de maneira construtiva, segundo especialistas em Gestão de Pessoas

1)    As causas dos conflitos em equipe

As duas especialistas ouvidas pelo Blog do Veduca disseram que cada conflito tem uma causa diferente, é claro, mas apontaram algumas características que estão na base de boa parte dos problemas de relacionamento.

– Comunicação pouco efetiva

“A comunicação em uma empresa precisa ser assertiva e clara. Os profissionais têm que saber perfeitamente que atitude se espera deles e quais são suas atribuições nos trabalhos que o grupo está desempenhando”, aponta Gleici Ibañez.

Porém, Ibañez diz que é comum que esses pontos sejam discutidos sem a profundidade que merecem, o que cria zonas cinzentas, um prato cheio para os conflitos em equipe.

A diretora da Logus RH também afirma que muitos profissionais ficam melindrados ao receber feedback ou mesmo ao serem chamados para reportar aspectos de seu trabalho.

Incomodar-se com isso costuma ser uma atitude imatura, pois a troca de informações e os diálogos de avaliação do trabalho são pontos essenciais para manter a “máquina” da equipe funcionando.

– Falta de planejamento

Segundo Ibañez, a falta de planejamento leva à redundância no trabalho, o que é um desperdício dos recursos da organização, ou a tarefas que ninguém faz porque não se sabe quem é o dono delas.

Mais uma vez, fica patente o fato de que a indefinição sobre os papéis de cada um e sobre as atitudes esperadas são as origens de muitos conflitos.

– Liderança mal-preparada

Tatiana Procópio aponta o despreparo das lideranças como um  dos componentes dos conflitos em equipe. Essa falta de habilidade vira um problema em momentos como o da promoção de um funcionário.

“Muitos chefes ainda não entenderam a questão da meritocracia. Às vezes, as oportunidades chegam para um e não para outros, o que gera conflitos sérios”, ela afirma.

Para Tatiana, a boa notícia é que as empresas estão ganhando consciência quanto à importância de investir em desenvolvimento de lideranças, no que se refere à capacidade de promover quem de fato faz o melhor trabalho, e não necessariamente quem é mais simpático ou mais submisso.

“Hoje, o líder que não segue o princípio da meritocracia acaba perdendo o lugar dele”, afirma.

– Intolerância

Na experiência de Procópio com as empresas, outra fonte frequente de conflitos em equipe é a intolerância.

Ela afirma que percebeu uma mudança na postura das pessoas que pertencem a grupos que costumavam sofrer discriminação ou que eram alvos de piadinhas. Indivíduos identificados com as minorias, diz ela, não aceitam mais o machismo, a homofobia e o racismo.

“Diminuiu o grau de aceitação desse tipo de injustiça. As pessoas não ouvem mais as piadinhas ou as agressões e ficam quietas”, diz Procópio, que deixa claro que, de fato, ninguém tem que aceitar esse tipo de coisa.

Denúncias de intolerância trazem à luz mais conflitos do que antes. Nesses casos, no entanto, fica claro como os conflitos em equipe podem evidenciar outros problemas graves e oferecer um caminho para a solução desses nós.

Para as empresas que não toleram discriminação (deveriam ser todas, não?), um conflito por esse motivo é a chance para tomar providências que garantam um ambiente mais inclusivo e diverso.

– Fofoca

O falatório sobre a vida alheia é mais um dos pais dos desentendimentos no ambiente de trabalho.

“Qualquer empresa tem fofoca, do Google à birosca da esquina”, garante Tatiana Procópio.

Ela diz que a fofoca, além de gerar irritação, provoca aumento do absenteísmo (faltas) e queda da produtividade, porque as pessoas perdem parte do seu tempo de trabalho empenhadas em repassar ou desfazer histórias a respeito de si mesmas e dos outros.

Procópio também diz que as redes sociais amplificaram a fofoca corporativa a um nível inédito. Ela conta que já viu vários casos em que alguns integrantes da equipe se juntavam para falar mal de uma outra pessoa do time por meio dos programas internos de mensagem, de grupos no Whatsapp ou mesmo de mensagens públicas no Facebook.

Ela conta que o problema pode ser ainda maior em empresas de cidades pequenas, onde os funcionários tendem a conhecer as famílias uns dos outros e onde a “fiscalização” sobre o que os outros fazem na vida privada tende a ser mais fácil.

“O líder da equipe precisa estar atento a esse tipo de coisa. A fofoca pode acabar com a sintonia da equipe”, explica a especialista.

Outro ponto que ela menciona é que, apesar de parecer óbvia, a regra de que  chefe nunca deve se envolver nas fofocas muitas vezes é ignorada. Procópio já viu casos de supervisores que não só faziam vista grossa para os comentários sobre membros da equipe como ajudavam a espalhar boatos (as definições de “apagar o fogo com querosene” foram atualizadas).

2)     Como as empresas lidam com os conflitos em equipe

“É comum que as empresas não saibam lidar com conflitos. Ou jogam para baixo do tapete ou lidam de forma agressiva com o tema”, resume Gleici Ibañez.

Tatiana Procópio reforça essa percepção

“Muitas empresas ainda escondem os conflitos porque têm medo do ônus de ter que lidar com o problema. Acham que ignorar dá menos trabalho”, explica.

Para Ibañez, algum grau de conflito é esperado e pode até ser produtivo, como já dissemos.

Ela lembra que a ausência total de conflitos pode ser a falta de abertura para a expressão verdadeira dentro da companhia.

“Quando as pessoas não podem falar o que pensam de forma construtiva, as discordâncias começam a se expressar outras formas: o tom dos diálogos fica mais ríspido, os conflitos passam a aparecer nas expressões faciais e nos pequenos gestos”, ela observa.

Além disso, se o conflitos são abafados, o líder da equipe perde a chance de ouvir opiniões diversas, o que reduz a capacidade de resolver problemas complexos.

Pesquisas já mostraram que a diversidade nas organizações, inclusive a diversidade de opiniões, tende a beneficiar os negócios. Você pode acessar este post do Blog do Veduca, se quiser saber mais sobre estudos a respeito desse tema.

Ibañez faz um alerta, porém.

“Reconhecer que os conflitos fazem parte da convivência em grupo não quer dizer que devemos deixar o problema crescer ou ficar focando nisso. Pelo contrário, não há como resolver um conflito sem admitir que ele existe”, ela afirma.

A questão é que depois de identificar o conflito, cabe ao líder da equipe agir para que a resolução seja positiva.

Afinal, o oposto do chefe que abafa qualquer discussão é o que finge que o problema não é com ele – e esse também não vai muito longe.

Um ambiente de conflitos exacerbados acaba minando a efetividade dos profissionais. Para a maioria das pessoas, um ambiente de rusgas frequentes torna-se cansativo e contraproducente.

Então, como se manter no “virtuoso caminho do meio”? Vejamos a seguir.

3)    Como lidar com conflitos em equipe de forma positiva

Mais uma vez, Ibañez e Procópio realçam que cada conflito tem uma solução diferente e que cabe ao líder da equipe usar sua sensibilidade e seu bom senso para identificar como melhor resolver a situação.

Dito isso, elas lembram que há um conjunto de atitudes frente aos conflitos em equipe que pode servir de base para a atuação do chefe. Eis algumas orientações gerais.

– Não ignore que o conflito existe

“Ninguém precisa amar seus colegas de trabalho, mas é necessário saber conviver com as pessoas”, afirma Ibañez.

Quando o/a chefe identifica que uma pessoa está gerando situações desagradáveis, por exemplo, precisa ficar atento/a à situação. Pode conversar com os colegas dessa pessoa, em particular, para constatar se existe ali um comportamento inadequado. Também cabe chamar a própria pessoa para um café e perguntar se ela identifica algum desconforto na reação dos colegas ao seu comportamento.

Dialogar com as pessoas envolvidas no conflito é o ponto de partida para entender como o problema pode ser resolvido. É importante que o líder da equipe seja justo e ouça todos os lados da situação, antes de tomar qualquer decisão.

– Assim que perceber o conflito, tente resolvê-lo

Conflitos em equipe nem sempre nascem de um tema grandioso, segundos as especialistas que o Blog do Veduca ouviu.

“Podem surgir por uma xícara de café colocada em um lugar que incomoda o outro. Mesmo esses pequenos conflitos precisam ser resolvidos, para não virarem uma bola de neve. A gente vê que o acúmulo de pequenos conflitos vai tornando a situação incontornável”, conta Gleici Ibañez.

A dica para o/a chefe da equipe é não deixar passar muito tempo, depois de perceber que houve alguma discordância. Ela/a deve chamar as pessoas para conversar, tentar entender o pontos de vista de cada uma e propor um caminho que pareça justo.

A omissão pode custar caro, mais adiante.

– Busque caminhos participativos de resolução

Para a diretora da Logus RH, as melhores soluções para conflitos em equipe são as que se alimentam do diálogo entre as pessoas envolvidas no conflito.

“Quando você coloca nas mãos das pessoas o problema e pede que elas apontem o que fazer, elas se sentem donas da solução”, ela diz.

Para a especialista, o desfecho que surge do amadurecimento do problema é mais efetivo e duradouro do que os casos em que o chefe resolve a discordância sozinho.

“Impor não costuma funcionar muito bem, porque o colaborador pode até fazer o que você mandou quando está na sua frente, mas ele não incorporou aquele comportamento. O conflito acaba voltando”, explica.

Outro ponto importante, segundo Ibañez, é trabalhar pela conscientização da equipe a respeito da importância de resolver conflitos positivamente.

Tatiana Procópio também aponta para a necessidade de evitar que os conflitos se desdobrem em problemas e dá sugestões de como prevenir conflitos destrutivos.

Esse será o tema do nosso próximo post. Não perca!

Saiba mais sobre conflitos em equipe

  • No vídeo abaixo, da plataforma TEDx, o mestre em Neurociência Educacional Tomas Drunkenmolle fala sobre como podemos “abraçar conflitos” e tirar algo positivo dessas experiências.

Créditos das fotos

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