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Comunicação Não-Violenta ajuda a reconstruir pontes no pós-eleição

Para boa parte dos brasileiros que se envolveram em debates a respeito das eleições, Comunicação Não-Violenta (saiba mais sobre essa prática no curso online grátis sobre Comunicação do Veduca) é uma definição bem distante do que eles vivenciaram nas conversas sobre o tema. As discussões ficaram tão tensas, inclusive em grupos de mensagens ou redes sociais, que levaram muita gente a romper relações com a própria família ou com amigos queridos.

Terminada a disputa pelos principais cargos políticos do país, é hora de avaliar se vale a pena retomar os laços que se partiram e, se for o caso, de trabalhar para reconstruir as pontes que a polarização política queimou. Segundo a psicoterapeuta, pesquisadora e coach Fabiana Maia, co-fundadora do LAB*CNV e do Instituto Terra Luminous, a prática da Comunicação Não-Violenta pode contribuir para isso, mesmo no caso dos relacionamentos em que os diálogos foram mais duros, mas é preciso ter disposição para ouvir e, principalmente, para se desapegar da vontade de definir quem está certo e quem está errado.

Fabiana Maia explica que a Comunicação Não-Violenta consiste em “lapidar a arte da conexão entre as pessoas e ganhar conforto nos conflitos”. Ela lembra que “praticar a Comunicação Não-Violenta não é ser fofinho, agradável e falar de um jeito meigo”, mas buscar entender as necessidades que existem por trás das reações de cada um e conseguir expressar suas próprias necessidades e ideias de maneira construtiva.

Na entrevista abaixo, Maia explica como esses e outros princípios da Comunicação Não-Violenta podem contribuir para os diálogos de aproximação no pós-eleições.

A psicoterapeuta Fabiana Maia fala a respeito de Comunicação Não-Violenta no curso online sobre Comunicação do Veduca

A psicoterapeuta Fabiana Maia: debater é importante, mas também precisamos de diálogo e escuta atenta

Blog Veduca – Terminadas as eleições, como a Comunicação Não-Violenta pode nos ajudar a reconstruir pontes com as pessoas com quem rompemos ou que nos decepcionaram por suas atitudes?

Fabiana Maia – O que a Comunicação Não-Violenta tem me ensinado e o que eu escuto das pessoas com quem tenho conversado sobre isso é que, quando eu olho para a pessoa à minha frente, eu olho para o ser humano que está ali. Eu posso odiar as opiniões, as crenças e os valores dessa pessoa, mas eu não odeio a pessoa. Aquele ser humano é muito mais complexo do que suas crenças. A Comunicação Não-Violenta nos ajuda a enxergar que necessidades aquela pessoa quer atender ao votar em algum candidato. O que eu tenho escutado de quem votou no Bolsonaro, por exemplo, é a necessidade de mudança, de segurança e de limpeza na política, porque o discurso dele toca muito nesses aspectos. Tinha alguma coisa na narrativa desse candidato que parecia atender a essas necessidades. Já quando eu olho para quem votou no Haddad, vejo, por exemplo, que essas pessoas enxergam a necessidade de liberdade, justiça social e inclusão. É isso o que estava pulsando mais dentro delas. Não é que inclusão ou liberdade sejam algo que quem votou no Bolsonaro não queira, e nem que quem votou no Haddad não queira segurança ou mudança. São todas necessidades humanas, mas talvez para quem não se sente seguro ao sair de casa, a segurança pulse mais, assim como para a pessoa que vivencia a exclusão, a necessidade de inclusão esteja mais forte.

Blog Veduca – Como colocar em prática esse princípio de enxergar a complexidade e as necessidades das pessoas de quem discordamos?

Fabiana Maia – É preciso saber distinguir debate de diálogo. Debate tem “concordo” ou “discordo”, e há momentos em que precisamos debater, mas muitas vezes chega uma hora em que não tem mais escuta no debate. Para quem quer refazer algumas pontes que tinha com outras pessoas e que se desfizeram, é muito importante construir uma escuta atenta e sair desse automatismo do debate. Podemos localizar as necessidades que estão embasando as escolhas do outro. Eu entendo, por exemplo, que você quer mais segurança e que tinha algo no discurso de um dos candidatos que atendia a isso que você quer.

Blog Veduca – Você consegue levar esses princípios para o seu dia-a-dia?

Fabiana Maia – Isso é algo que estou praticando 24 horas por dias, nos últimos dois meses, e que tem sido muito desafiador. Na minha família, tivemos muitas conversas sobre eleições e houve muita discordância. Um exercício que tento fazer, nesses casos, é olhar para as pessoas de quem discordo e enxergar o que está por trás das opiniões delas. Eu me pergunto, como se estivesse perguntando para elas mesmas: “Conte-me mais sobre que necessidade você tem e que você está buscando nesse candidato”. Por outro lado, eu também fico atenta às minhas necessidades enquanto tenho essas conversas.

Blog Veduca – Por que é tão difícil praticar esse tipo de exercício, especialmente quando conversamos com pessoas que amamos ou com quem temos uma convivência próxima?

Fabiana Maia – Uma necessidade forte, para muita gente, é ter admiração pelas pessoas com quem se convive. Quando alguém de quem gostamos revela uma posição política contrária à nossa e que nós acreditamos estar ligada aos valores e crenças dessa pessoa, nossa admiração por ela despenca. É por isso que nos incomodamos tanto. Para mim, é importante que, quando isso acontece, eu diga a essa pessoa: “Admirar você é relevante na minha vida, e eu consigo admirar muita coisa em você, porque eu vejo coisas lindas no que você fala, pensa e faz, mas, neste momento, eu fico em luto, por não conseguir admirar você”. Assim, abro espaço para um diálogo que parte da minha vulnerabilização e desloco a conversa da polarização concordo versus discordo.

Blog Veduca – Na abordagem da Comunicação Não-Violenta, é razoável que alguém não queira reconstruir pontes? Quando essa pessoa se sente profundamente desrespeitada ou mesmo ameaçada pelas escolhas políticas da outra pessoa, por exemplo?

Fabiana Maia – A Comunicação Não-Violenta só é possível quando há escolha. Não poder escolher é uma violência, é opressão. Então, é claro que as pessoas têm todo o direito de escolher se vão ou não tentar reconstruir pontes com quem elas romperam. Porém, eu quero apoiar as pessoas a pensar no que está por trás dos seus julgamentos. Quando eu digo que alguém é um fascista, por exemplo, isso é um atalho para dizer que essa pessoa tem necessidade de poder, espaço, liberdade e escolhe uma estratégia trágica onde uns ganham e outros perdem. Os que perdem têm uma série de necessidade que não estão sendo contempladas, como liberdade, respeito, aceitação e valorização das diferenças, entre outras. Acho que podemos fazer um movimento para ir além desses atalhos, porque eles desumanizam o outro, e podemos comunicar nossa forte discordância de outra forma. Uma possibilidade é aquela que mencionei, de deixar claro para o outro que ele revelou crenças e valores que fizeram minha conexão com ele cair muito. É uma tentativa de levar a conversa para um lugar em que exista alguma possibilidade de o outro também me escutar. Essas eleições anunciaram um grande perde-perde coletivo, por causa das rachaduras sociais que se aprofundaram. Precisamos fazer um movimento que nos leve ao ganha-ganha.

Blog Veduca – Mas como é possível conciliar um sentimento tão profundo quanto a crença de que se está defendendo valores fundamentais com a disposição para ouvir e enxergar alguém que parece atacar esses valores?

Fabiana Maia – Nas ciências exatas, existe um botão certo e um errado para ligar as coisas. Eu aperto um botão e o telefone reage de um certo jeito. Se eu apertar outro botão querendo que o telefone faça a mesma coisa que antes, não vai funcionar. Já nas ciências humanas, não existe esse certo e errado tão claros. Um livro de História sempre vai ter um viés, sempre vai haver o olhar de quem está escrevendo. Nós estamos falando de um lugar em que não há esse contorno tão preciso entre o que uma coisa é ou não é, e isso precisa ser considerado. Vou dar um exemplo pessoal: eu me assustei com muitas das coisas que ouvi nessas eleições e achei importante me posicionar claramente sobre alguns temas nas conversas com quem eu conheço. Porém, precisei me lembrar o tempo todo que a perspectiva sócio-histórica sobre todos os temas varia de acordo com o ator que narra. Ser feliz após as eleições terá a ver com se desapegar do certo e errado, em alguma medida, se a gente quiser reconstruir algumas pontes que se quebraram. Eu preciso me vulnerabilizar e contar para o outro, mais uma vez, que para mim é importante admirá-lo e que quando eu escuto o que essa pessoa diz, fica muito difícil fazer isso. As ideias podem ser debatidas com firmeza, mas quando pensamos na intenção ou na necessidade que está por trás delas, vale tentar se despir do julgamento sobre certo e errado. Esse é um princípio importante da Comunicação Não-Violenta.

Blog Veduca – Quando as relações que ficaram abaladas e que queremos tentar reconstruir são das da família ou as de amigos muito próximos, existe algum cuidado especial que podemos ter, na perspectiva da Comunicação Não-Violenta?

Fabiana Maia – Todos nós temos pontes valiosas, relações que queremos sustentar. Às vezes, não dá nem para escolher. É muito difícil alguém apagar pai e mãe da sua vida, por exemplo. Eu posso sair do grupo de WhatsApp da família, se aquele ambiente me incomodar, e tudo bem, mas vou acabar encontrando essas mesmas pessoas que estavam no grupo, quando eu for ao aniversário do meu pai ou à festinha de algum sobrinho. O cuidado, nesses casos, está na preparação para encontrar essas pessoas, se eu quiser manter uma harmonia na relação. Uma forma de se preparar é conversar sobre isso com a sua rede de apoio, ou seja, com as pessoas próximas de você e com quem você pode dialogar sem conflitos e com uma qualidade de escuta empática. Quando eu vou a um evento familiar e sei que vou encontrar algumas pessoas, eu comento com um amigo que não será fácil ter aquele encontro e pergunto se ele pode ouvir um pouco sobre o meu incômodo. Também me conscientizo de que eu não quero estar no piloto automático, porque pode haver alguma fala que servirá como isca para eu soltar a metralhadora. Quero poder olhar conscientemente para as necessidades que estão por trás daquela fala que me tira de um lugar de harmonia. Outro exercício possível é repetir para si mesmo as falas que podem servir de isca para a sua raiva e pensar em como você espera reagir a essas provocações. Assim, você vai criando um movimento para não se desestabilizar. Nem sempre é fácil fazer isso, mas quando eu consigo, é uma sensação de paz impressionante, e a reação das pessoas também pode mudar. É como se você aparecesse com a bandeira branca, em vez de recomeçar a guerra.

Blog Veduca – Pensando em particular nas pessoas que apoiaram o candidato vencedor, o que elas podem fazer para reconstruir pontes ou evitar que elas se fragilizem ainda mais?

Fabiana Maia – Parece simplório, mas acho que a chave, mais uma vez, é se desvencilhar dos conceitos de ganhadores e perdedores. Se uma pessoa que apoiou o candidato que venceu as eleições disser a quem apoiou o outro candidato coisas como “agora você vai ver só” ou “chora mesmo”, isso pode gerar uma temporária sensação de satisfação, mas no fundo, ela está contribuindo para detonar a relação que tinha. É como celebrar na frente de alguém que está de luto, porque a sensação de ver seu candidato derrotado, depois de uma eleição tensa como essa, muitas vezes é essa mesma, de luto. Quem quer comemorar pode procurar alguém que compartilhe dessa alegria, a chance de ter companhia e de sentir celebrando, de fato, é muito maior.

Quer saber mais sobre Comunicação Não-Violenta?

Em 6 de novembro de 2018, às 13h30, a psicóloga Fabiana Maia dará uma palestra sobre Comunicação Não-Violenta, na Virada Zen de São Paulo. A participação é gratuita.

Leia também este post do blog do Veduca sobre princípios da Comunicação Não-Violenta.

No vídeo abaixo, do canal Eu Sou Aquilo, no YouTube, o fundador da prática da Comunicação Não-Violenta, Marshall B. Rosenberg, explica os princípios da CNV.

Aprenda sobre Comunicação Não-Violenta 

Você pode assistir ao curso online sobre Comunicação do Veduca, que tem inscrição gratuita. Os vídeos da Fabiana Maia nesse curso fazem parte de um conjunto de conteúdos sobre Comunicação em geral, concebidos pelo Veduca em parceria com os especialistas Rodrigo de Godoy, Fabiana Maia, Renata Porto e Martha Terenzzo, e apresentados por Luciano Oliva, especialista em comunicação com foco em carreira, comunicador de rádio e TV com mais de 25 anos de experiência em meios como Jornal do Brasil, TV Record, Rede Transamérica, Jovem Pan e SBT.

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