Características da produção enxuta: estrutura externa de uma fábrica

Características da produção enxuta transformaram a indústria

Quem leu o post anterior do Blog do Veduca certamente ficou curioso para saber que características da produção enxuta permitiram que esse modelo de fabricação de produtos, difundido pelo mundo nos anos 1980 e 1990, gerasse mudanças profundas no sistema industrial.

O post resumiu um vídeo do curso online de Fundamentos de Administração disponível no Veduca. As aulas do curso são apresentadas pelo professor Helio Janny Teixeira, doutor em Administração pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP) e professor da mesma instituição.

Esse módulo do curso que trata da produção enxuta – e que o blog destrinchou – começa pela descrição dos impactos do modelo sobre a indústria automobilística.

Durante a maior parte do século XX, os conceitos dominantes na produção industrial foram os do fordismo, sistema de produção em massa que se consolidou nas fábricas da Ford, nos Estados Unidos, e que ditou como a fabricação de carros e de outros bens deveria ser feita.

Nas últimas duas décadas do século, porém, a montadora Toyota iniciou, em suas fábricas no Japão, uma série de práticas que misturavam componentes do fordismo com elementos do sistema artesanal de produção. O objetivo era adaptar a produção em massa ao mercado japonês.

Nesse percurso, a Toyota obteve uma série de vantagens produtivas sobre suas concorrentes americanas, o que chamou a atenção de todo o planeta para a produção enxuta e levou o modelo a se difundir globalmente.

Como aponta o professor Janny Teixeira, em suas falas no curso online, os trabalhadores da Toyota no Japão conseguiam apresentar mais sugestões de aperfeiçoamento dos processos do que os operários americanos nas fábricas da Ford e de outras montadoras.

Além disso, a produção enxuta entregava um carro pronto em metade do tempo usado pelo modelo anterior para fabricar o mesmo produto e com muito menos erros.

De acordo com a Pesquisa Mundial das Montadoras do IMVP, os carros da General Motors (GM) apresentavam quase três vezes mais defeitos do que os da Toyota, em 1986.

Essa série de conquistas não passou despercebida pelos olhos dos gestores. Com o objetivo de descobrir as características da produção enxuta que geraram resultados tão impressionantes, estudiosos de diversas instituições acadêmicas se debruçaram sobre a Toyota e sobre outras companhias que vieram a adotar o mesmo sistema.

Livros e teses detalhadas a respeito do tema foram publicados, o que permitiu a pesquisadores como Janny Teixeira sintetizar esse conhecimento e compartilhar essas observações com seus alunos.

Veja a seguir um resumo da aula do professor sobre as características da produção enxuta. Depois, se der vontade de seguir aprendendo, conheça mais sobre o curso online do Veduca e faça sua inscrição!

As características da produção enxuta que revolucionaram as empresas

Características da produção enxuta: mulher dirigindo um carro

Já no início da explicação sobre as características da produção enxuta, o professor Hélio Janny Teixeira deixa claro que assim como o fordismo (sistema de produção em massa) foi o paradigma dominante no sistema industrial global entre os anos 1920 e 1980, a produção enxuta passou a moldar a fabricação de produtos a partir das duas últimas décadas do século XX.

“Foi um modelo revolucionário. A produção enxuta substituiu a produção em massa não só para automóveis, mas para eletrodomésticos, aparelhos eletrônicos, brinquedos e tantos outros setores”, diz Janny Teixeira.

Pois bem, as características da produção enxuta que fizeram o modelo se destacar foram:

1)    Responsabilidade pela qualidade pertence a cada trabalhador

Na linha de montagem clássica, ninguém pode parar a produção a não ser a gerência da fábrica. Quando surge algum problema, a produção de itens defeituosos vai se prolongando até que os gerentes tomem alguma providência.

A produção enxuta transformou isso.

“A sacada do Taichi Ono (responsável pela produção enxuta na Toyota, nos anos 1980) foi dizer: ‘Não, a qualidade pertence ao trabalhador’. Cada pessoa na linha de montagem pode paralisar esse sistema caso perceba algum problema”, explica Janny Teixeira.

2)     Redução do estoque de matérias-primas

A Toyota passou a trabalhar com um número menor de fornecedores e, às vezes, até mesmo com um único fornecedor. Com isso, a previsibilidade do processo tornou-se uma das características da produção enxuta.

“O fornecedor passa a ser uma extensão da empresa. Ele entrega as peças do estoque de dentro da linha de montagem. É como se ele estivesse repondo peça a peça. É por isso que a Toyota conseguiu baixar seu estoque”, diz o professor.

Além disso, o fornecedor é certificado e os produtos também passam por um processo prévio, o que facilita o processo de controle de qualidade das peças fornecidas.

3) Projetos mais ágeis de lançamento de novos produtos

Nos Estados Unidos, um produto automobilístico levava até cinco anos para ser desenvolvido. A Toyota baixou essa prazo, em suas fábricas do Japão, para três anos.

Janny Teixeira lembra que a estrutura para fazer um novo produto, nas companhias americanas, era matricial (mais complexa) e as pessoas trabalhavam em suas rotinas e também no projeto novo.

No caso japonês, eles montavam uma estrutura específica para dar corpo ao produto que precisava nascer.

“Tinha um chefão, um coordenador de projetos e uma equipe pequena que só trabalhava no produto novo”, ele explica.

Esse método acelerou o ciclo de criação na empresa e trouxe dinamismo ao mercado.

4) Trabalho em equipe e trabalhadores multiqualificados em todos os níveis

Em uma fábrica do modelo anterior, os operários eram estimulados a se especializar cada vez mais em seu próprio setor e a fazer um único trabalho ou até mesmo um único movimento.

“Era o suprassumo do trabalho individual especializado. A pessoa da linha de montagem não tinha tempo nem de conversar ou olhar para o lado”, comenta Janny Teixeira.

Já no modelo desenvolvido pela Toyota, as tarefas são realizadas em equipes. A ideia é que, progressivamente, todas as pessoas de um mesmo grupo passem a dominar um conjunto de tarefas.

“Caso uma pessoa do grupo estável tenha que faltar, outras pessoas podem cobrir aquela tarefa que ela faz”, explica o apresentador do curso.

Ele exemplifica: supondo que a divisão do trabalho de montagem seja dividida em seis tipos de competências, a empresa faz uma programação para que todos os funcionários dominem essas seis habilidades.

Isso traz maior estabilidade ao grupo, o que se converte em aumento de produtividade.

5) Maior proximidade com o consumidor

Por causa da redução de estoques e do trabalho mais integrado com fornecedores, uma das características da produção enxuta é permitir a adaptação mais precisa do produto às escolhas do consumidor.

“Em alguns sites de montadoras, o consumidor pode até ‘montar’ seu próprio carro”, afirma o professor, lembrando que as montadoras passaram a oferecer, mais recentemente, possibilidades de escolha de peças que não seriam possíveis no sistema fordista.

Por exemplo, o comprador tem à disposição uma variedade maior de cores para a lataria e de tipos de bancos, além de poder definir a combinação desses elementos com mais facilidade.

É nesse sentido que o professor Hélio Janny Teixeira afirma, em vídeos anteriores do curso online do Veduca, que a produção enxuta combina elementos da fabricação em massa, típica do fordismo, com traços da produção artesanal.

6)    Máquinas altamente flexíveis

A ideia de produtividade na indústria está ligada à padronização.

“Em geral, quanto menos produtos eu faço (em uma mesma máquina), maior produtividade eu consigo. Quando uma empresa tem muitos produtos, pode ter problemas frequentes com a troca de ferramentas e com o lead time, como é chamado o tempo para limpar a máquina, trocar as ferramentas e recomeçar”, diz o professor.

No entanto, os japoneses conseguiram ampliar a variedade de produtos e, ao mesmo tempo, elevar a produtividade a um nível acima daquele obtido nos Estados Unidos.

Dessa forma, umas das características da produção enxuta foi quebrar a tradição da indústria de evitar a diversificação para não afetar a produtividade.

“Isso foi possível porque os japoneses criaram máquina flexíveis, com regulagens fáceis. O robô pode ser reorientado,
sem muita demora, a mudar o que faz. É só uma questão de programação dos sistemas integrados e de controle da produção”, detalha Janny Teixeira.

7)    Just-in-time e kanban

A sincronização desse conjunto de processos internos e de relações externas transformadoras recebeu o nome de just-in-time (algo como “bem na hora” ou “na hora certa”, em inglês).

Outro termo que sempre é associado à produção enxuta é “kanban”, palavra em japonês que significa algo como “cartão” ou “sinalização”. Trata-se de um sistema de informação interna por meio de cartelas.

“Quando falta o produto, é passada a cartela para quem tem que entregar o novo produto. O novo produto também vem com uma cartela indicando a chegada. É uma coisa simples de ser feita de forma manual e visual”, explica.

Hoje em dia, esse sistema manual é combinado com sistemas computadorizados, segundo o professor.

A importância de conhecer essa e outras histórias do mundo da produção

Depois de explicar as principais características da produção enxuta, Hélio Janny Teixeira faz uma observação importante: a produção em massa não desapareceu.

Pelo contrário, a produção enxuta incorpora uma série de traços da produção em massa. A diferença é que esses elementos são combinado com novas formas de trabalhar.

“Sempre que eu tenho volume, repetição e padronização, vou utilizar a produção em massa”, lembra o professor.

Janny Teixeira conclui o vídeo com um lembrete interessante: “É ilusão achar que um modelo surge de forma emancipada do passado”.

É por isso que é tão importante, para quem trabalha na área, conhecer a história dos modelos de gestão, seus antecedentes e desafios. Exatamente o conteúdo que o professor compartilha tão bem.

Saiba mais sobre as características da produção enxuta

  • No vídeo abaixo, o coordenador de Melhoria Contínua da empresa de fabricação de vidro arquitetônicos GlassecViracon, Vinicius Morishigue Monte, fala sobre o processo de produção enxuta na companhia, seus desafios e resultados. É uma visão prática bastante interesante a respeito da teoria que o professor Janny Teixeira explica em seu curso.

Créditos das fotos

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Produção enxuta: operário soldando uma peça

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