Assédio nas ruas deixa marcas e restringe a liberdade da mulher

Assédio nas ruas deixa marcas e restringe a liberdade da mulher

Alguém precisava contar para os homens que o “fiu fiu”, a “encoxada”, a “mão boba” e outras formas de assédio nas ruas não têm graça. Mais do que isso, alguém precisava dizer às mulheres que passam por essas situações que elas podem, sim, se incomodar e se posicionar contra isso, e que elas não estão sozinhas nessa. Foi esse pensamento que motivou a jornalista brasileira Juliana de Faria a transformar o tema do assédio sexual num debate nacional.

Criadora da campanha Chega de Fiu Fiu e da organização não-governamental Think Olga, que produz e reúne conteúdos sobre temas relevantes para o público feminino, Juliana ajudou a amplificar a voz de milhares de mulheres, ao lançar, em 2013, uma plataforma que as encorajou a falar sobre a intimidação que elas sofrem em lugares públicos.

O ponto em comum, nos milhares de depoimentos que a Chega de Fiu Fiu contribuiu para trazer à tona, foi a reação de medo, vergonha, raiva e nojo que as vítimas do assédio sexual nas ruas tiveram, ao serem submetidas a essa agressão. Nas falas das participantes da campanha, ficou claro como o assédio é diferente da paquera e por que seus efeitos não são os de uma “brincadeira”, como muita gente insistia (e insiste) em caracterizar a abordagem em lugares públicos. Também ficou evidente que muitas delas se calaram, por medo de serem julgadas como as responsáveis por terem “atraído” o assediador, e que o silêncio é uma das condições para que os assediadores sigam agindo.

Para contribuir com uma mudança nesse quadro, o Veduca lançará, em breve, o curso online grátis Assédio Sexual: Prevenção e Combate, criado em parceria com a Women Friendly, primeira startup do Brasil a certificar estabelecimentos que atuam para tornar seus ambientes de trabalho e consumo seguros para todas as mulheres. No espírito desse curso, o Blog do Veduca está publicando uma série de posts sobre assédio sexual. Já conversamos com a Ana Addobbati, fundadora do Women Friendly, sobre o que é assédio e como uma mulher pode denunciar esse tipo de abuso, e também compartilhamos sete estatísticas que mostram o cenário do assédio sexual no Brasil.

Neste post, você acompanhará uma entrevista com a Juliana de Faria sobre o que caracteriza o assédio nas ruas e como a sociedade por combatê-lo. Leia a seguir.

O assédio nas ruas e seus efeitos

Assédio nas ruas: Juliana de Faria

Juliana de Faria, fundadora do Think Olga: precisamos começar a levar a sério as dores que as mulheres vivenciam, ela diz

Blog do Veduca – Em que situações a abordagem das mulheres pelos homens, nas ruas ou em lugares públicos, transforma-se em um assédio?

Juliana de Faria – Assédio é o que acontece sem consentimento, quando só uma parte está participando e não sabe o que está acontecendo com a outra. O homem que pratica o assédio não sabe nada sobre essa mulher que ele aborda e nem se ela está interessada naquela abordagem. Isso desumaniza a mulher, transforma a mulher em objeto. O assédio nas ruas é fruto dessa visão objetificada da mulher e também da ideia de que ela é uma cidadã de segunda classe, que deveria estar restrita ao espaço privado, arrumando a casa, cuidando do marido, dos filhos. Quando a mulher ousa sair às ruas e ocupar o espaço público, surge esse ímpeto de controlá-la. Não tem a ver com desejo ou com amor, mas com controle sobre a mulher.

Blog do Veduca – E legalmente, como se caracteriza o assédio nas ruas?

Juliana de Faria – O assédio sexual nas ruas era chamado, nas abordagens legais, de importunação ao pudor. Muito recentemente, em 26 de setembro de 2018, foi sancionada no Brasil a Lei da Importunação Sexual, que tipificou o assédio sexual que ocorre em espaços públicos ou no transporte coletivo, por exemplo. A lei ainda chama esse crime de importunação sexual, e não de assédio sexual, porque já existia no Código Penal a figura do assédio. Do ponto de vista penal, o assédio se dá no ambiente de trabalho, porque se caracteriza pela existência de desigualdade hierárquica entre assediador e assediada. De qualquer forma, essa lei que marca o assédio em lugares públicos como crime foi uma conquista importante. Aliás, é importante para as mulheres saber usar os termos corretos. Houve casos em que a mulher foi à delegacia registrar que sofreu assédio no metrô, por exemplo, e o delegado disse que não podia definir uma abordagem indesejada como assédio, porque o Código Penal diz que isso só acontece quando há uma questão hierárquica envolvida, e mandou  a mulher para casa sem fazer boletim de ocorrência. Por isso, saber um pouco desse “juridiquês” ajuda a sermos ouvidas, além de contribuir para gerarmos dados mais precisos, que é algo útil no combate ao assédio nas ruas.

Blog do Veduca – Você já disse em entrevistas que, frequentemente, escuta o comentário de que essa conversa sobre assédio sexual nas ruas é “mimimi”. Existe um componente de frescura ou hipersensibilidade na ideia de que alguns tipos de abordagem são formas de violência?

Juliana de Faria – É claro que não! Precisamos começar a levar a  sério as dores, o medo e os traumas que as mulheres vivenciam. Desacreditar esses depoimentos e dizer que estamos ficando hipersensíveis são táticas para diminuir o sentimento das mulheres e o impacto da violência sobre elas. É uma forma de revitimizar essa mulheres que foram assediadas. Dizer que elas são loucas, que elas estão mentindo ou exagerando é frequente, e constitui o que chamamos de gaslighting (uma forma de manipulação psicológica para semear dúvidas sobre a memória, a percepção ou a sanidade de alguém). É também uma maneira de desumanizar essa mulher. Aliás, os homens sempre tiveram esse privilégio de serem retratados de formas mais complexas do que as mulheres, inclusive em filmes e livros. Para descrever as mulheres, é mais comum as pessoas recorrerem aos estereótipos.

Blog do Veduca – Há formas de paquerar ou mostrar interesse em uma mulher sem que isso se transforme em assédio?

Juliana de Faria – Consentimento é uma palavra importante nesse contexto. Nossa sociedade não está acostumada a trabalhar com esse conceito. Quando a gente diz aos homens que eles podem paquerar se houver consentimento, eles não entendem muito bem o que isso quer dizer. Como sociedade, precisamos amadurecer esse conceito e falar mais sobre isso. Da mesma forma que as crianças aprendem que precisam escovar os dentes, elas deveriam aprender que não se bate em ninguém, nem em uma mulher, que não se toca no corpo de uma mulher sem o consentimento dela. É uma questão de saúde, e serviria, inclusive, para combater a masculinidade tóxica, que mata e prejudica os homens.

Blog do Veduca – Que impacto o assédio nas ruas ou em lugares públicos tem sobre a vida das mulheres?

Juliana de Faria – Esse medo de ser violentada leva as mulheres a não experimentarem suas vidas ao máximo, assim como os homens fazem. Elas não vivenciam sequer a cidade da mesma forma que seus companheiros. Quando terminamos o documentário Chega de Fiu Fiu, olhamos para o resultado e pensamos: “Meu Deus, fizemos uma tese sobre a acessibilidade das mulheres na cidade”. Não era necessariamente a ideia inicial, mas a questão foi surgindo. As mulheres relatam que, para fugir do assédio, pegam caminhos mais longos, escolhem roupas diferentes das que gostariam de usar, deixam de usar batom, vestido, algumas cortam o cabelo. Tudo isso para poderem circular na cidade normalmente. As mulheres têm direito à cidade, como os homens, mas na prática, esse direito não é respeitado. O documentário foi uma ferramenta para questionarmos isso. As cidades são feitas para as mulheres? Spoiler alert: não, elas não são.

Blog do Veduca – Como as mulheres devem agir, quando sofrem assédio nas ruas ou em lugares públicos?

Juliana de Faria – É difícil falar sobre isso. No Think Olga, quando estávamos fazendo estudos online, recebemos a informação de que 60% das mulheres que disseram ter reagido a um assédio foram duplamente vitimizadas, muitas vezes com uma violência física como reação à resposta delas. Os assediadores puxam o cabelo, empurram. É importante lembrar que, quando falamos de assédio, estamos falando de controle, e não de amor e carinho. Então, quando a mulher se mostra ser humano e diz “não”, ela acaba sendo violentada novamente. Em várias palestras que dei, ouvi mulheres dizendo que, mesmo sabendo identificar que o assédio é uma violência, mesmo quando elas estudavam o tema, inclusive, não souberam como reagir, ao serem assediadas. As mulheres se sentem culpadas também por não reagirem, elas são responsabilizadas também nesse caso. Por isso, dizer o que a mulher que sofreu assédio deve fazer é uma forma de culpabilizá-la. É claro que a gente precisa botar a boca no trombone e, sempre que possível, denunciar o assédio, mas nem sempre é fácil.

Blog do Veduca – Quanto aos homens que querem contribuir para a prevenção do assédio nas ruas, o que eles podem fazer?

Juliana de Faria – Os homens precisam levar para seus grupos de amigos essa discussão. É muito mais fácil que eles sejam interlocutores sobre isso com outros homens do que as mulheres. Esse papel tem extrema importância. No documentário Chega de Fiu Fiu, as diretoras promoveram e gravaram uma roda de conversa entre homens, com um homem como mediador. Vários participantes chegaram lá com aquelas ideias estereotipadas, de que quando uma mulher quer se sentir bem, ela passa em frente a uma obra, e coisas do tipo. Mas eles foram mudando de opinião, ao longo da conversa. Essa roda mostrou que, quando os homens conversam entre eles sobre o assédio, vão abrindo a cabeça. Agora, no que se refere à sua própria forma de agir, eu diria aos homens que estão interessados em combater o assédio que eles podem conversar sobre isso com mulheres do seu círculo, que eles podem se educar sobre o tema. Ouvir e ler relatos das mulheres sobre isso é importante. O principal é o homem estar aberto às informações e às histórias contadas pelas próprias mulheres, ter acesso às vozes dessas pessoas. Isso dá nuances e percepções novas ao debate.

Quer saber mais sobre assédio nas ruas e em lugares públicos?

  • Acompanhe, no próximo post do Blog do Veduca, a continuação da entrevista com Juliana de Faria sobre assédio nas ruas e sobre a Campanha Chega de Fiu Fiu.
  • Fique atento ao curso online grátis Assédio Sexual: Prevenção e Combate, que o Veduca lançará em breve!
  • O Instituto Maria da Penha criou uma ação publicitária para gerar nos homens uma pequena amostra da sensação ruim que o assédio nas ruas provoca. Veja como eles replicaram esse sentimento.

  • A marca de bebidas Schweppes também criou uma campanha para conscientizar homens e mulheres sobre a diferença entre assédio sexual e paquera. Eles usaram um vestido sensorizado, para capturar toques indesejados dos homens sobre o corpo das mulheres. O resultado é impressionante. Leia a matéria do HuffPost Brasil sobre essa campanha e assista abaixo ao vídeo sobre essa experiência.

  • A repórter Gabriela Rangel, da CBN, gravou um vídeo para mostrar as cantadas que recebe ao andar por São Paulo. Em oito horas de gravação, ela ouviu 15 “gracinhas” de homens que não a conheciam e que entenderam que poderiam fazer comentários sobre sua boca e seu corpo. Assista abaixo.

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