Assédio na universidade: escultura na FEA-USP

Assédio na universidade: FEA-USP cria programa de prevenção

O assédio na universidade é um problema em muitos centros de ensino no Brasil e há anos provoca mobilizações de alunas, professoras e funcionárias, que pedem um ambiente de trabalho e estudo seguro para todas as mulheres.

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Na Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP), a pressão feminina resultou em um programa inédito na história de uma das mais prestigiosas instituições de ensino da América Latina. Respondendo a demandas da comunidade, a FEA criou, em outubro de 2018, uma iniciativa para discutir e implementar ações contra o assédio sexual em seus espaços de aprendizado, pesquisa e convivência.

Uma portaria da direção da Faculdade definiu o Núcleo de Gestão de Qualidade de Vida como responsável por trabalhar essa questão. Para liderar a comissão coordenadora dessa iniciativa contra o assédio, a FEA escolheu Ana Cristina Limongi, professora titular da própria instituição e ex-pró-reitora de Cultura e Extensão da USP. Ela explica que o programa insere a prevenção e o combate ao assédio na universidade como parte de um contexto mais amplo, de construção de uma comunidade acadêmica mais saudável.

Com essa finalidade, a Comissão de Gestão da Qualidade de Vida está atuando em três vertentes: saúde mental, boas práticas e assédio sexual e moral. A partir desses três eixos, o grupo definiu doze ações a serem implementadas, em conjunto com estudantes, professores, servidores da organização e sociedade civil como um todo.

“O programa tenta mudar a cultura
organizacional, promovendo a escuta da comunidade e a conscientização das
pessoas sobre a importância do respeito ao outro”, define Limongi.

Combate ao assédio na
universidade passa pela conversa

Seguindo esse espírito de estimular uma nova
cultura a partir do diálogo, o primeiro passo do trabalho para ampliar o bem
estar na universidade foi abrir espaços de conversa pública sobre o tema, por
meio de dois foruns abertos, um sobre saúde mental e outro sobre intolerância
política, com a participação de psiquiatras e especialistas da USP.

A professora Ana Cristina Limongi conta que nessas duas discussões já apareceram opiniões e questionamentos sobre vulnerabilidade feminina. O próximo debate, em fevereiro de 2019, terá como tema o assédio sexual na universidade e deverá trazer mais subsídios para que o Programa de Gestão da Qualidade de Vida possa atuar.  

Outra ação em curso é um mapeamento da
percepção da comunidade. A FEA está desenvolvendo um protocolo quantitativo,
para estimar quais são as situações e ambientes em que o público feminino da
Faculdade se sente mais inseguro. Um questionário via internet será aplicado
com esse objetivo.

A professora Ana Cristina Limongi explica que um desafio na dscussão sobre os abusos é romper o tabu que o assunto representa, inclusive para as próprias vítimas, que muitas vezes têm dificuldade em identificar como assédio as violências que sofrem.

 “Queremos ensinar a comunidade a enxergar o
assédio e criar um ambiente de tolerância zero com isso”, ela diz.

Resposta aos apelos da comunidade

Escadas do saguão principal da Faculdade de Medicina da USP: pesquisa mostrou que 43% dos alunos sofreram algum tipo de assédio ou discriminação sexual na vida acadêmica. Foto: Wikimedia Commons/JVech

O método para esse processo de prevenção e combate ao assédio vem sendo desenvolvido e implementado pela professora Limongi desde os anos 1990. Ela já coordenou ações como palestras e ciclos pontuais de debate sobre o tema, mas diz que esta é a primeira iniciativa articulada e de longo prazo contra o assédio em ambientes de ensino e pesquisa na FEA-USP e, provavelmente, uma das primeiras nas universidades brasileiras.

“É uma abordagem psicopedagógica baseada no diálogo e nas vivências da própria comunidade. A gente dá o fundamento e as pessoas discutem”, ela explica.

A professora conta que a pressão por medidas concretas contra o assédio na universidade veio de coletivos formados pela comunidade acadêmica da USP, especialmente os de gênero e os de diversidade.

“Eles indicavam que que havia comportamentos inadequados dentro da universidade”, ela conta.

Uma pesquisa realizada em 2013 pela professora Maria Fernanda Tourinho Peres, da Faculdade de Medicina da USP, indicou que 43% dos alunos do curso haviam sofrido algum tipo de assédio ou discriminação sexual em sua vida acadêmica. A violência nas universidades paulistas já foi alvo de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Assembleia Legislativa de São Paulo, em 2015, depois de estudantes e pesquisadoras denunciarem casos de abuso sexual, assédio e agressão no ambiente universitário.

Associado a esse movimento, surgiu em 2015 o Não Cala, uma rede de professoras e pesquisadoras pelo fim da violência sexual e de gênero na Universidade de São Paulo. O grupo tem promovido caminhadas e debates sobre esses temas e já entregou ao reitor uma petição pedindo medidas pela segurança das mulheres na USP.

A instituição tem respondido à reivindicação dos coletivos de maneira descentralizada. Segundo Ana Cristina Limongi, cada uma das 94 unidades administrativas da universidade foi se organizando por linha de pesquisa dos professores envolvidos ou de movimento estudantil. Na FEA, que está desenvolvendo uma solução considerada institucional, por ter apoio e investimento da direção, a expectativa é de uma mudança de cultura.

“O resultado de tudo isso deve ser educação
sobre o tema, proteção das pessoas e compartilhamento da qualidade de vida”, resume
Limongi.

Quer saber mais sobre assédio na universidade?

  • O vídeo abaixo, produzido por alunas da Escola de Comunicação e Artes da USP, reúne relatos de assédio na universidade, na voz de alunas e pesquisadoras.

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